O tapa sem mão que me fez acordar e descer do palco

Eu sempre estudei em escolas privadas consideradas de ponta, voltadas para quem precisava disputar vagas nas universidades públicas do estado do Pará por meio dos vestibulares. Nesse meio, cresci ouvindo falar dos “professores de primeira divisão”. Eles eram quase entidades: tinham uma didática envolvente, dominavam o estilo de prova como ninguém e davam dicas extraordinárias de véspera que pareciam adivinhar as questões do dia seguinte.

Nas aulas deles, que eram verdadeiros shows, ninguém ousava dar um pio, pois parecia pecado atrapalhar. Se algum aluno fosse expulso de sala por indisciplina, a corda sempre estourava para o lado dele, com sérias consequências.

Esses professores eram idolatrados. E, como meu sonho era ser professor, coloquei na cabeça que seria exatamente assim: idolatrado. Queria entrar em sala de aula e ver a turma inteira fazer um silêncio absoluto, ter medo de me aborrecer e ficar com os olhos grudados na lousa.

Minha primeira oportunidade foi em uma escola que hoje já não existe, sob a orientação do meu mentor, que também era seu proprietário. Eu dava aulas de Física para as turmas do ensino médio e de Matemática para as turmas do ensino fundamental II. E foi aí que a teoria bateu de frente com a realidade.

As turmas do fundamental eram completamente diferentes das do ensino médio, pois nelas não existia a lógica do vestibular, aquela cobrança que mantinha os mais velhos quietos. Conquistar a atenção daqueles meninos e meninas era uma tarefa diária e exageradamente difícil.

Um dia, em uma turma de oitavo ano, enquanto eu ensinava divisão de polinômios, vi um aluno dormindo durante a minha explicação. Aquilo me incomodou. Eu queria me impor, queria deixar o recado claro para a turma de que, na minha aula, ninguém dormia e todos tinham que me respeitar.

Pedi para o colega do lado acordá-lo e, assim que ele abriu os olhos, ordenei que fosse até a lousa para resolver uma questão sobre o assunto que eu estava explicando. Na minha cabeça, o plano era perfeito: eu ia fazê-lo passar vergonha na frente de todo mundo e ele nunca mais ousaria dormir na minha aula.

O menino levantou, foi até a lousa sem reclamar, pegou o pincel e resolveu a questão inteira sem errar nada. Depois, devolveu o pincel na minha mão, voltou para a sua cadeira, deitou a cabeça e dormiu de novo.

Eu fiquei estático, suando frio, sem saber o que dizer. Eu queria fazê-lo se sentir envergonhado, mas quem ficou sem palavras e morrendo de vergonha fui eu.

Tempos depois, descobri o que realmente havia acontecido. Aquele garoto passava as madrugadas acordado, estudando, como uma válvula de escape para tentar enfrentar a angústia de ver os pais passando por um processo de divórcio bastante conturbado.

E, para completar o meu aprendizado, o pai desse garoto foi até a escola algum tempo depois para conversar comigo e relatar que o filho me admirava muito e gostava demais das minhas aulas.

Aquele episódio mexeu profundamente comigo e foi um divisor de águas. Percebi que aquela postura autoritária e punitiva que eu herdei da minha época de aluno não fazia o menor sentido se eu quisesse, de verdade, que meus alunos sentissem vontade de aprender.

Dali em diante, desci do palco de professor idolatrado e assumi o compromisso de tentar ser, todos os dias, o professor que eu sempre quis ter.

Prof. Luzianderson da Silva Ramos
Licenciado em Física pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com especializações em Ensino de Física e em Metodologias Ativas e Tecnologias Digitais pela Faculdade Líbano.
Professor de Física na rede pública estadual de Santa Catarina, em Chapecó/SC.
Mestrando em Educação pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e integrante do Grupo de Pesquisa GEPEFORTE.