Não é incomum encontrarmo-nos rodeados por família ou amigos e constatar que, apesar de estarmos de “corpos presentes”, estamos, de mente, bem distantes. Isso é proporcionado pelos recursos tecnológicos digitais móveis, que permeiam a sociedade moderna e, portanto, o nosso cotidiano.
Tal situação passou a ser tão comum que não nos damos mais conta do quanto isso nos afasta da cena real que estamos vivendo, de maneira presencial. Além disso, a desterritorialização repentina e reterritorialização ao presencial, deixa um vácuo que nem sempre passa despercebido por quem está ao nosso redor. Mas isso falaremos em outro texto.
Temos a impressão de que vivemos um “aceleramento” do tempo. Não quero dizer que o relógio está andando mais rápido, mas que estamos adicionando mais tarefas a serem realizadas em um mesmo momento. Tais como: almoçar e responder mensagem de whatsapp; assistir TV e rolar o feed; estar em uma festa e atualizar as postagens das redes sociais, além de responder aos comentários, pois sempre tem alguém online.
Essa dinâmica, que estamos fazendo no automático, além de dar a impressão que nos falta tempo para dar conta da atividade principal que iniciamos, nos faz deixar de olhar e dar atenção para a presencialidade. A cada momento baixamos a cabeça e teclamos para dividir a atenção do aqui e multiplicar com o lá.
Em momentos de observação nas minhas andanças e atividades rotineiras, vejo na rua pessoas andando de cabeça baixa, escrevendo no celular; grupos de amigos sentados em mesa de bar, também de cabeça baixa, interagindo de maneira virtual, deixando o silêncio pairar sob a mesa por um tempo; em reuniões, palestras e, até mesmo, aulas, enquanto alguém está com a palavra, alguns estão de cabeça baixa, dispersando a atenção para outro espaço.
Se observarmos nos pontos de ônibus, metrô, sala de embarque de aeroporto, sala de espera de consultório médico: em todos esses espaços, muitas pessoas com seus pescoços virados para baixo, interagindo com alguém em um suporte, que poucas vezes é analógico, como um livro ou um jornal, mas sim, digital, como um smartphone.
Creio que nem a dor cervical, que certamente com o passar do tempo irá nos brindar com sua presença, devido à postura incorreta para realizar tal atividade em grande parte do nosso dia, poderá fazer com que abandonemos esse hábito. Porém, a possibilidade de estarmos e vivermos os momentos de forma menos “acelerada”, tem relação direta com voltarmos a usar, na maior parte do nosso dia, a “cabeça para frente”.
Nossas relações online dificilmente substituirão as presenciais e, além disso, poderão potencializar a aceleração do tempo e a posição física da nossa cabeça: para baixo.
Que possamos ter mais oportunidades de estarmos com a “cabeça no lugar”, não dispensando os recursos digitais proporcionados pela técnica que permeia nosso cotidiano.